Afundo no assento e fecho os olhos. Relaxo o corpo completamente. 
— Escute, Oshima.
— Que é?
— Eu já não sei mais o que fazer. Não sei nem para onde estou indo. Nem o que é correto, nem o que é errado. Não sei se devo seguir adiante ou voltar atrás. 
Oshima continua quieto. Não responde.
— Que é que eu faço, Oshima? — pergunto. 
— Não faça nada — responde ele simplesmente.
— Absolutamente nada?
Oshima assente com um meneio de cabeça.
— É por isso que o estou levando para o meio da montanha.
— Mas o que é que eu faço no meio da montanha?
— Ouça o vento — diz ele. — Eu sempre faço isso.
Penso a respeito. 
Oshima estende a mão e a depõe gentilmente sobre a minha.
— Você não tem culpa das coisas que aconteceram. Nem eu. Nem a profecia, nem a maldição. Tão pouco o DNA ou a irracionalidade têm algo a ver com elas. Nem o estruturalismo, nem a Terceira Revolução Industrial, por falar nisso. Nós todos somos destruídos e desaparecemos porque o mundo se estrutura sobre destruição e perda. Nossa existência é apenas um teatro de sombras desse princípio. O vento sopra. Há vendavais de furioso poder destrutivo, há brisas reconfortantes. Mas todo vento um dia cessa e desaparece. O vento não é matéria sólida. É mero nome que se dá aos deslocamentos de ar. Você apura os ouvidos. E decifra o sentido dessa metáfora. (…) Dentro em pouco, você vai estar sozinho no meio da montanha e fará coisas para você mesmo. É chegado o momento para isso. 
— Coisas para mim mesmo?
— Apure os ouvidos, Kafka Tamura — diz Oshima. — Apure os ouvidos. Preste atenção, como se fosse um molusco.

Haruki Murakami, in: Kafka à Beira-Mar. — Rio de Janeiro: Alfaguara, 2008, pág. 412, 413.