Eleanor & Park, de Rainbow Rowell

Publicado pela Editora Novo Século

Esse livro me escolheu essa semana.

Sim, eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, e, sim, nos conhecemos. Ler é explorar. Não é como muitos dizem uma ausência de atividade, pelo contrário, enquanto lemos nossa imaginação faz com que todos os nossos sentidos sejam requisitados.

A leitura é fluida e o tema essencial nos dias de hoje. Adolescentes. Dois párias, um mestiço e uma menina esquisita. Um introspectivo, filho mais velho de pai combatente na Guerra do Vietnã que se apaixona por uma coreana e a traz para casa, casa-se e se amam. Sua aparência mestiça o marginaliza, fora dos padrões. É Park.

Eleanor, é filha de mãe submissa, companheira de homem violento e alcoólatra, tem outros quatro irmãos, vivem numa pobreza extrema, e, sua estranheza nas roupas, no cabelo ruivo revolto grita por ajuda.               As roupas são compradas são compradas em brechós, masculinas, grandes, rasgadas, fora de moda, customizadas com colares e pulseiras que não decoram mas escondem as imperfeições.

Todos os irmãos dormem num único quarto, comem quando conseguem, e, permanecem todos trancados no quarto, juntos, para não perturbarem o “ pai”. Sim, o companheiro só é pai do recém nascido, o pai biológico sequer se interessa ou os auxilia, só a chama uma única oportunidade para trabalhar de babá uma noite de seu novo filho com sua nova esposa.      E ainda lhe é prometido 20dólares mas ele só lhe paga 5dólares.

Privacidade, nenhuma.

Bom, ela é inteligente, perspicaz.

E, o livro inicia com o drama do primeiro dia de aula, para ela, e, o famoso ônibus escolar americano. Todos os assentos já estão ocupados, claro. Ninguém é amistoso.  Mas a motorista manda que sente já que  o ônibus não pode circular com passageiros em pé, por medida de segurança, lógico.

E, assim, olha ao redor e vê um lugar vago junto a janela, olha, e, Park, encosta e lhe dá a vaga do corredor.       A analisa, julga e torce para que no próximo dia, ache um outro lugar.

Contudo, o convívio e a solidão de ambos é tão desesperadora que, consegue perceber o interesse de Eleanor por HQs, que são sua paixão, assim como a música, Smiths, U2,The Cure, e, outras bandas poéticas, cantando toda a solidão e a busca por um caminho. Enquanto lê no ônibus, persegue estar Eleanor lendo com ele, e, até demora para virar a página aguardando que ela também tenha lido. No dia seguinte, já lhe traz uma pilha para que ela leve para casa, x-Men, Watchmen, Batman, e, esse é o seu tesouro…uma coisa só sua, enquanto os irmãos assustados amontoam-se perto da porta enquanto a mãe apanha do companheiro…ô vida difícil.

Quando os amigos do fundo, o eterno jogador limitado e a sua namorada bonita e malvada _ estereótipos claro,já que não nos aprofundamos em suas estórias. Park lhe dá um dos fones, e, Eleanor conhece os Smiths… Park lhe empresta a fita, ela recusa, ele não sabe porquê, mas ela…sequer tem um discman ! E quando ele lhe empresta o discman, recusa, não tem dinheiro sequer para comprar pilha! Sim, e ele lhe empresta com as pilhas, afinal aquilo para ele é normal, ter dinheiro para poder ouvir suas musicas! Nem imagina outro cenário.

E para ela…é o paraíso. Na escola se destaca nas aulas de literatura com um olhar diferenciado e os professores a destacam.            Obviamente é perseguida no vestiário após a aula de educação física pela Tina e suas amigas, mas também porisso, encontra outras marginalizadas como ela, e, formam um grupo para almoço.

Ambos esperam o início e o término das aulas, para no ônibus desfrutarem da presença um do outro. Ele até tenta ir a casa de Eleanor, mas essa lhe pede que nunca mais faça isso, daí, a alternativa, é ela quem começa a frequentar a casa de Park. No início é rechaçada pela mãe, que julga a aparência e o desleixo da menina, mas o pai do rapaz, a acolhe. Para Eleanor não é fácil. Park tem uma família constituída, pai, mãe, irmão, avós, todos convivem, não há briga ! Apenas ajustes, comuns no crescimento de todos.   A mãe tem um pequeno salão na garagem, mal fala inglês, e, sim, cuida do cabelo de Tina.

As visitas se estendem, e, o convívio chega a jantar todos os dias com a família, em seguida, Park a leva até parte do caminho.    A amizade vai se tornando necessidade, e o afeto, estranho a ambos, vai se apresentando sob diversas maneiras, a preocupação com o outro, o carinho, a aceitação, todos os sentimentos necessários para o crescimento pessoal e ajustamento com a vida adulta.

O ápice da estória acontece quando o companheiro se exalta a tal ponto que Eleanor e os irmãos no quarto, ouvem tiros. Ela escapa pela janela e vai até o vizinho, que a trata pessimamente, e, chama a polícia. Obviamente quando a polícia chega, sendo o companheiro já conhecido na cidade,já não há qualquer vestígio.

Ela sabe que seu tempo ali acabou, e, que tem que buscar ajuda, pensa na tia, irmã de sua mãe, em outra cidade mais distante. Avisa Park, e, como ela nem tem o dinheiro para comprar uma passagem de ônibus, se prontifica a levá-la de carro, a mãe empresta seu carro.  O pai ao saber, empresta o seu.

No caminho, sentem que irão separar-se, que não haverá mais os encontros no ônibus, os jantares na casa de Park…mas o motivo é mais forte e não há como escapar.       Ele a deixa na porta da casa da tia, uma despedida simples e rápida.       

A separação…ele lhe manda cartas todos os dias, mas Eleanor não responde… Muitas das coisas perderam a graça para Park, mas, o carinho, e porquê não o amor é maior…o livro acaba com Eleanor, já estável, lhe mandando um postal.

Lindinho, aconselho a todos, adultos, adolescentes. Uma leitura importante que não pode ser banalizada mas lida como um relato perspicaz e delicado da condição humana, do crescimento e desse momento tão crucial de perceber não sermos mais crianças e enfrentar problemas adultos.